Resenha: Ideias para adiar o fim do mundo

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Ideias para adiar o fim do mundo
Autor: Ailton Krenak
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2020

Quase no centenário da morte de Franz Kafka, ocorrida em 1924, a população mundial continua a sofrer de uma profunda angústia existencial e segue sem compreender muito bem o funcionamento das burocracias poderosas e da globalização dos mercados. As primeiras frases do documentário Bitter Lake (2015) de Adam Curtis são muito ilustrativas: “Cada vez mais, vivemos em um mundo onde nada parece fazer sentido. Os eventos passam como ondas de uma febre e nos deixam confusos e inseguros.” Ainda assim, os impactos terríveis do poder estatal e das pressões econômicas são sentidos todo dia pela grande maioria das pessoas. O drama aumenta quando economistas e líderes políticos insistem em dizer que o problema somos “nós”, os “outros”, aqueles do andar de baixo da pirâmide social, que temos que ganhar menos, trabalhar mais, querer pouco e não reclamar. Estamos sempre errados apenas por existir e “eles”, inexoravelmente certos.

Um dos grupos sociais que mais perderam, e continuam perdendo, nesse labirinto político-econômico e ideológico, são os nossos irmãos indígenas. A história das Américas pode ser resumida pelos mais de cinco séculos de práticas genocidas, etnocídas e ecocidas, assim como a experiência brasileira como nação independente encerra quase duzentos anos de desprezo, violência e tentativa de calar os povos ancestrais. No entanto, para nossa grande alegria, eles não se calaram. Muito pelo contrário, as vozes de intelectuais, pesquisadores e lideranças indígenas representam o que há de mais sofisticado, agudo e propositivo entre todos que hoje habitam este vasto território chamado Brasil. Basta ouvi-los para termos lições de grande sabedoria e recebermos de presente uma carga generosa de palavras, sentimentos e conselhos.

Ailton Krenak, conhecido nacionalmente desde o campo de batalha da última Assembleia Constituinte, é um desses grandes mestres a cativar indígenas e não-indígenas. Krenak é uma combinação rara de mente afiada, oratória carismática e escrita inspirada e instigadora. Seu último livro Ideias para adiar o fim do mundo foi recebido com enorme satisfação por leitores e comentaristas – uma luz de lucidez no “meio” do túnel – ainda mais considerando que este foi um “ano-kafkiano” difícil de entender e de explicar. Basta lembrarmos as desventuras do (des)governo brasileiro, a crescente insatisfação no campo e nas cidades, o ataque a tudo que funcione ou que pense no país, e as revoltas e derrotas das classes populares nos países vizinhos (como a rasteira que levaram os indígenas na Bolívia, o enfrentamento que mantiveram no Equador e a sublevação no Chile, culminando com a linda bandeira colorida Mapuche desfraldada sobre a estátua de um general vetusto e esquecido).

O livro foi um grande sucesso na FLIP 2019 e entrou, de forma meritória, na lista dos melhores do ano. Muito bem humorado e com um argumento irônico e profundo, a obra reproduz uma entrevista e duas palestras proferidas pelo autor. O texto começa com reflexões pessoais sobre sua primeira ida a Portugal, o velho império colonizador, e a surpresa de encontrar graves problemas sociais que não diferiam tanto dos dilemas enfrentados pelos indígenas na antiga colônia. Há também lembranças preciosas da aldeia Krenak, no Vale do Rio Doce, uma região tão impressionante, mas também tão degradada pelos equívocos da extração mineral e da expansão agrícola desatinada. O livro descreve a percepção indígena das questões contemporâneas e oferece uma crítica amistosa, mas incisiva, de conceitos e práticas reducionistas. Há ainda referências ao trabalho de outros intelectuais e líderes religiosos indígenas, e à contribuição das universidades e de organizações envolvidas na reparação de injustiças, eliminação do racismo e respeito à autonomia irrestrita dos povos originários.

A temática central é, naturalmente, o risco cada vez mais palpável de autodestruição da vida humana nesse planetinha azul, uma vez que a sociedade globalizada e alienada insiste em seguir parasitando a natureza e explorando a força de trabalho da maioria subalterna. Parece evidente que não é uma boa ideia insistir na dupla exploração sociedade-natureza para manter padrões injustos e suicidas de produção, consumo, desperdício e acumulação de capital. Mas, por ser algo tão óbvio, poucos levam em conta a estupidez generalizada e a possibilidade concreta de, ao fim e ao cabo, virmos todos a ser apenas uma nota de rodapé, um episódio passageiro na história biogeológica da Terra. Nesse sentido, a contribuição de pensadores como Ailton Krenak é extremamente oportuna e pertinente. Há aqui um paradoxo saboroso, mas que não pode ser ignorado: a chamada ou o convite para uma humanidade nova vindo daqueles grupos sociais considerados por muitos como a humanidade obsoleta e redundante. Claro, de passivo e obsoleto os indígenas não têm nada.

Um dos debates mais interesses nas ciências sociais hoje está justamente relacionado ao pensamento vivo e à agência política dos povos indígenas, buscando por um lado reconhecer e respeitar características que são únicas e idiossincráticas e, por outro, entender processos político-econômicos e socioculturais comuns a todos os grupos inseridos de forma subordinada na globalização dos mercados. Geógrafos, antropólogos e outros profissionais estão batendo cabeça para discernir as conexões ontológicas entre o específico/étnico/local e o geral/compartilhado/global. Proliferam conceitos como pluralidade de mundos, interespecificidade e pluriverso, entre tantos outros. Essa conversa vai continuar e seguramente ficará cada vez mais interessante.

Portanto, é bom que todos saibam que as provocações trazidas por Ailton Krenak são da maior relevância intelectual e os poderão ajudar muito na sua investigação teórica, ética e metodológica. Além de tudo, chama a atenção seu desprendimento e vontade de ajudar, como nessa afirmação excepcional: “Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como vão fazer para escapar dessa” (página 31). Joias como essa nos ajudam a perceber que o problema central dos “brancos”, ou não-indígenas, são aqueles “mais brancos que os outros” que se arvoram o direito de explorar, controlar e seguir mandando. Também provam como a manutenção de desigualdades e injustiças estruturais é uma condenação antecipada e ineludível ao fim do mundo. Considerando tudo que foi dito acima, não resta dúvida que esse livro, além de prazeroso, é indispensável para refletirmos sobre começo, fim e, com sorte, algum recomeço.

 

Antônio A R Ioris, professor da School of Geography and Planning, Cardiff University, coordenador da Rede Agroculturas  (IorisA@cardiff.ac.uk)
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